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Violência doméstica contra crianças e adolescentes (VDCA) e educação da afetividade e da moralidade: expressões de sentidos da palmada na linguagem de desenhos infantis (2007)

  • Autores:
  • Autor USP: LONGO, CRISTIANO DA SILVEIRA - IP
  • Unidade: IP
  • Sigla do Departamento: PSA
  • Assuntos: VIOLÊNCIA NA FAMÍLIA; PUNIÇÃO; PSICOLOGIA DO DESENVOLVIMENTO; ÉTICA; ANÁLISE DE DESENHO
  • Idioma: Português
  • Resumo: O presente estudo tem como tema o fenômeno da violência doméstica física contra crianças e adolescentes (VDCA) no Brasil, especialmente no que tange a cultura da palmada, a partir de uma investigação qualitativo-social em psicologia sócio-psicointeracionista e crítica, sobre os sentidos de se crescer com palmada. Pretende compreender os sentidos das experiências infantis de apanhar do pai ou da mãe na infância, isto é, as sensações, emoções, sentimentos e valores inter-relacionados sobre tais experiências autobiográficas. Partindo dessas dimensões constituintes da afetividade, aproxima-se do esclarecimento da questão de se a palmada, que se constitui em uma violação do direito à integridade física, psíquica e moral da criança, o é assim por ela vivenciada; pretende-se assim captar registros ou testemunhos do universo doméstico, no tocante aos processos relativos à como se educar uma criança, que fazem parte de um modo de sociabilidade maior, implicando condutas práticas e éticas disciplinares, onde atos de violência física e humilhação de pais contra filhos são encenados. Parte da hipótese de que a palmada (e todas as formas de punição corporal) constitui-se para a criança que apanha uma experiência predominantemente maléfica, isto é, marcada por sentidos do mal, mal-estar, sofrimento, angústia, tristeza, humilhação, etc., e, portanto, não pode ser encarada como uma estratégia disciplinar favorável à educação e ao desenvolvimentoinfantil. Tais argumentos, se verificados, poderão oferecer importantes subsídios a somar forças para a construção legal da proibição de toda e qualquer forma de punição corporal de pais contra filhos, sob quaisquer pretextos, bem como atuar no plano das mentalidades e costumes visando à diminuição de seu uso prático. O Corpus de análise é constituído 92 Produções (desenhos legendados) de crianças (de 9 a 12 anos) de ambos os sexos e provenientes de 17 unidades federadas brasileiras, coletadas no primeiro semestre de 2003, a partir de um concurso nacional de desenho infantil promovido pelo Laboratório de Estudos da Criança (LACRI), do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (IPUSP), cujo tema foi Crescer Sem Palmada. As crianças, em contexto escolar, foram convidadas a produzir um desenho sobre a seguinte consigna, caso apanhassem dos pais: "Como você se sente quando recebe uma palmada?", após o que deveriam responder por escrito à seguinte questão: "Escreva o que este desenho quer dizer." As Produções constituem-se no presente estudo como fonte documental primária, e foram analisadas a partir de três níveis de análise de conteúdo (AC). Da análise temática, tem-se que 32,64% das Produções expressam palmadas e 67,40% expressam outras modalidades de punições corporais, sendo às mais freqüentes a cintada (18,47%), golpes com a mão aberta ou fechada (9,78%), a chinelada (6,52%), e a surra cruenta (4,34%).Predomina o costume dos pais punirem os filhos em casa (35,86%), mas apanhar em público parece ser também bastante comum no Brasil (28,26% dos cenários identificados). A palmada é exercida igualmente pelo pai e pela mãe, e 70,65% dos filhos não sabem exatamente porque estão apanhando, embora se tenham identificado 10 motivos expressos para apanhar dos pais: apanhar por possuir algum atributo negativo, apanhar como demonstração de amor, apanhar por desobediência e erro, apanhar por dar prejuízo, apanhar por sadismo dos pais, apanhar por fracassar na escola, e apanhar por falar palavrões e brigar. O estado afetivo subseqüente à experiência de apanhar parece ser mais marcante do que a própria surra: 58,70% das Produções expressam cenas pós-punitivas, enquanto que 27,18% expressam cenas punitivas; e 8,69% fixam a cena pré-punitiva, pois o próprio anúncio de que a criança irá apanhar configura-se já como um mal - violência psicológica. Da AC categorial, os afetos mais freqüentemente relacionados são: mal-estar (96%), tristeza (84%), dor (64%), medo (38%), sentimento de ser desprezado (38%) e de inferioridade física (37%), revolta ou indignação (30%), solidão e desamparo (25%), vergonha e humilhação (25%), seguindo-se então a raiva (24%), a resignação (20%), a culpa (19%) e auto-piedade ou pena de si (16%) e sentimento de terror (15%); bem-estar (12%), alegria (7%), prazer (4%), gratidão (4%) e desejo de morrer (3%). Da AC estrutural fez-seemergir 14 formas expressivas do mal da palmada: Mal como Sofrimento Psíquico, Mal como Ritual, Mal como Covardia, Mal como Injustiça, Mal como Terror Doméstico, Mal como Destrutividade, Mal como Vontade Maligna, Mal como Ferida Moral, Mal como Fragmentação do Self, Mal como Escuridão, Mal como ação de Seres Malignos, Mal como Tempo Ruim, Mal como Morte. A partir da discussão de tais resultados, conclui pela veracidade da hipótese formulada, uma vez que os sentidos predominantes relacionados às experiências infantis de apanhar do pai ou da mãe são expressões de negatividade ou do mal, mesmo quando a criança expressa afetar-se por "paixões positivas", o que deve ser antes compreendido como um esforço de auto-preservação ou racionalização, pois a palmada é predominantemente vivida e sentida como uma experiência maléfica, do mal, que causa mal-estar e tristeza, impotência e heteronomia, sendo, portanto, contrária ao desenvolvimento ou expansão de si em sentido amplo, envolvendo o desenvolvimento cognitivo, afetivo e ético-moral da criança
  • Imprenta:
  • Data da defesa: 13.04.2007
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    • ABNT

      LONGO, Cristiano da Silveira; AZEVEDO, Maria Amélia. Violência doméstica contra crianças e adolescentes (VDCA) e educação da afetividade e da moralidade: expressões de sentidos da palmada na linguagem de desenhos infantis. 2007.Universidade de São Paulo, São Paulo, 2007. Disponível em: < https://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/47/47131/tde-21012021-011839/ >.
    • APA

      Longo, C. da S., & Azevedo, M. A. (2007). Violência doméstica contra crianças e adolescentes (VDCA) e educação da afetividade e da moralidade: expressões de sentidos da palmada na linguagem de desenhos infantis. Universidade de São Paulo, São Paulo. Recuperado de https://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/47/47131/tde-21012021-011839/
    • NLM

      Longo C da S, Azevedo MA. Violência doméstica contra crianças e adolescentes (VDCA) e educação da afetividade e da moralidade: expressões de sentidos da palmada na linguagem de desenhos infantis [Internet]. 2007 ;Available from: https://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/47/47131/tde-21012021-011839/
    • Vancouver

      Longo C da S, Azevedo MA. Violência doméstica contra crianças e adolescentes (VDCA) e educação da afetividade e da moralidade: expressões de sentidos da palmada na linguagem de desenhos infantis [Internet]. 2007 ;Available from: https://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/47/47131/tde-21012021-011839/


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